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AS MINHAS VIAGENS

AS MINHAS VIAGENS

PARADOS POR FORÇA DO COVID MAS CHEIOS DE VONTADE DE REGRESSAR

22.04.20 | António Lúcio / Barreira de Sombra

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O nosso percurso é feito de altos e baixos, de subidas e descidas, de cair e ter de erguer-se de novo, de momentos bons e de momentos maus, de vida e de morte. Normalmente só nos apercebemos do valor de algumas coisas ou pessoas quando as perdemos…

Hoje decidi fugir de casa e refugiar-me, por momentos, breves que a pandemia a isso obriga apesar de estar só, no cume de um monte sobranceiro ao Sobral de Monte Agraço, e de onde se travaram as invasões francesas, o Forte Grande de Alqueidão e daí disfrutar da solidão que esse local permite e sentir o vento nas faces e o cabelo a esvoaçar.

Admiro a paisagem onde as modificações peradas pelo Homem vieram estragar um pouco dessa natureza bruta de montes e vales, de pedaços de floresta, de aldeias e de um horizonte a perder de vista. É verdade. Vislumbramos uma parte de Lisboa e da margem sul e, rodando para Oeste, a Serra de Sintra e o Palácio da Pena, a Ericeira, a Serra do Socorro, o vale em direcção a Torres Vedras e Peniche já bem longe. Depois, majestosa se ergue a Serra de Montejunto e vislumbram-se também as Porta do Sol em Santarém, o Rio tejo na zona da Central Termoeléctrica do Carregado… e as aldeias em torno a Sobral.

O Forte Grande de Alqueidão foi um dos grandes bastiões de defesa de Lisboa e onde se travaram as invasões francesas comandadas por Massena, com Wellington e Beresford do nosso lado. Hoje travamos uma luta diferente, desigual, mas que, creio, terá o mesmo desfecho: sairemos vitoriosos e qui o vírus não resistirá.

Preocupam-me demasiadas coisas. Da subsistência dos empregos às relações familiares e de amizade, para já não falar do relacionamento social que tendencialmente passará por um afastamento maior das pessoas umas das outras. Mas, ao mesmo tempo, aquele conceito de vizinhança que havia na minha juventude de há 45 anos atrás, parece estar de volta, em proximidade e preocupação das pessoas umas pelas outras e maior voluntarismo na ajuda aos mais necessitados.

Pequenos gestos podem fazer grandes diferenças e nos dias de hoje mais ainda. Um simples telefonema, uma mensagem, um cumprimento mais efusivo, podem ajudar muito neste combate a uma solidão forçada em que não podemos estar onde e com quem queremos ou frequentar aqueles lugares que sempre serviram para nos dar forças para arribar quando as coisas se tornavam mais difíceis e penosas.

A determinação e a resiliência são uma das marcas identitárias do povo português. A sua capacidade para se reinventar, para procurar novas abordagens para dar a volta aos assuntos, são sobejamente conhecidas. Por isso, por cada tombo que damos nos levantamos com maior determinação e superando sempre as adversidades.

Gosto de sentir o cheiro intenso do mar e a sua energia costuma fazer milagres. Parece que a absorvo na sua plenitude. Longe do mar, o cheiro das flores silvestres e da floresta de eucalipto e pinheiro, a brisa fresca que sopra no cume do monte, ajuda e de que maneira, a superar tudo o resto, subindo calma e placidamente desde a sua base até esse cume elevado a mais de metros acima do nível do mar e, ao mesmo tempo tão alto que nos permite tocar o céu e as nuvens.

Apetece-me gritar, aqui do alto e bem alto, a minha necessidade de liberdade, gritar que estou vivo e que nada nos vencerá porque fomos feitos para vencer. Custe o que custar.

António Lúcio, Forte Grande de Alqueidão

 

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