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AS MINHAS VIAGENS

AS MINHAS VIAGENS

Ter | 06.12.22

HISTÓRIAS DA MINHA INFÂNCIA E JUVENTUDE (8)

APROXIMA-SE O NATAL… TEMPO DE COMUNHÃO E DE PARTILHA

 

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Sempre que se aproximava o dia 8 de Dezembro, era sinal de que o Natal estava mais próximo e com ele, uma série de acontecimentos que movimentava toda a família na nossa casa em Cachimbos e que resultava numa consoada cheia de gente, muita comunhão e partilha e tudo sob o comando da minha mãe, sendo que a parte decorativa (árvore de Natal e presépio era tarefa nossa e do pai.

Havia uma tradição, de dia 8, feriado, e que o avô António Diniz fazia questão que cumpríssemos: a ida à feira do Cadaval, a feira onde sempre se comprava algo para ajudar a passar as agruras do frio de inverno (uns cobertores ou mantas), ou umas botas de cabedal, ou umas árvores de frutos, e eu gostava de comprar figuras de barro para o presépio. Então lá íamos no carro do meu pai tipo excursão familiar até ao Cadaval e havia sempre uma história que o avô contava em Vila Verde dos Francos e onde constava que uma burra ou burro tocara o sino da igreja…

Nestes dias, ou íamos à mata da Moucheira a Subserra ou a outro lado mais perto onde houvesse pinheiros e com a ajuda de um serrote lá trazíamos um pinheirinho para fazer a árvore de Natal que o meu pai enfeitava a preceito com bolas, fitas e luzes que havia trazido de Lisboa. Era uma alegria. Depois, tínhamos já apanhado duas ou três caixas de musgo para o presépio que era montado no local onde fora uma larga chaminé no primeiro andar da nossa casa e que estava forrada a contraplacado. Tinha uns bons 3 metros de comprido por 1,5 metros de profundidade. A parede de cima e o fundo eram forrados com papel metalizado azul e umas estrelas, simbolizando o céu. No chão, com recurso a pedras e a restos de videiras faziam-se montes e vales, o espaço para um lago (uma forma de vidro), a cabana onde nasceu Jesus, os caminhos feitos com areia, dezenas de peças a representar tudo o que um presépio que se preze deve ter. E as luzinhas espalhadas por todo o cenário, onde naturalmente, o destaque eram a cabana do menino Jesus e os 3 reis magos.

Montar o presépio era tarefa longa e demorada para que tudo ficasse na perfeição. E se nesse dia 8 se acendiam as luzes da árvore de Natal, era também a altura para o fazer no presépio que num dos anos contou com uma linha de comboio elétrico, o primeiro que eu havia recebido no ano anterior.

Na mesma área, próximo da árvore de Natal haviam de aparecer, na noite de 24 de dezembro, as prendas que iriamos receber e que a minha mãe fazia questão de manter bem escondidas até essa data, fosse no seu guarda-fato ou na casa da avó Sara. Ficávamos ansiosamente à espera que os embrulhos fossem colocados junto à árvore para depois os podermos abrir.

Antes da abertura dos presentes e naturalmente com a presença dos avós António, Sara e às vezes da avó Aldegundes, tínhamos tomado todos juntos o nosso jantar de Natal, com o habitual bacalhau vindo de uma loja de Lisboa, da Rua dos Bacalhoeiros, onde o meu pai o comprara, as couves (da nossa produção, tal como as batatas), o pão confeccionado pela avó Sara, os sonhos e outros bolos (bolo-rei inclusive) que eu havia ajudado a mãe a preparar e a terminar, e ainda o perú recheado que ficava divinal após horas a assar no tradicional forno do fogão de lenha.

Tudo isto tinha um encanto único que se foi perdendo com a perda dos familiares mais próximos mas que nós os irmãos vamos tentando manter como símbolo da união familiar que a minha mãe tanto gostava de promover.

Vem aí o Natal. Que o saibamos celebrar com a dignidade e a humanidade que lhe deve presidir e agradecer a Deus esta continuidade.

António Lúcio

Sobral de Monte Agraço, 6 de dezembro de 2022