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AS MINHAS VIAGENS

AS MINHAS VIAGENS

Qui | 24.11.22

HISTÓRIAS DA MINHA INFÂNCIA E JUVENTUDE (6)

TRABALHOS NA VINHA – DA PODA À VINDIMA

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Quem trabalha na agricultura cedo se acostuma a não haver horários para as inúmeras tarefas que urge realizar e as vinhas não são excepção. Hoje tudo é mecanizado, mas nos anos 70 e 80, tudo, ou quase tudo, era feito com recurso ao trabalho de homens e mulheres, com tarefas específicas, e pouca mecanização existia em vinhedos cuja plantação e disposição erai irregular, quase tanto como os terrenos em que eram implantadas. Umas encostas com alguma pendente bastante inclinada, como era o caso da “Vinha da Forca”, por baixo de onde hoje se ergue o Miradouro da Forca, e onde existiam uma casinha de arrumos e dois poços que muito raramente secavam.

O meu avô trazia essa vinha assim como o terreno de outras culturas da mesma propriedade, ao terço com o dono das mesmas e o meu pai ajudava nos labores até que o meu avô faleceu e o meu pai assumiu essa responsabilidade durante uns anos. A propriedade era boa, tinha acessos bons pela EN115, e pela Barqueira e era rentável tendo em conta que não precisava de contratar quase ninguém a não ser para a ceifa e para a poda e a vindima.

Pois bem, miúdo ainda, acompanhava os homens e mulheres que tratavam da poda (cortar as videiras de acordo com as respectivas castas, ora a talão, ora com varas) e juntavam as varas cortadas em molhos para mais tarde serem queimadas (bastantes molhos eram guardados para o forno onde a minha avó cozia o belo e saboroso pão feito do trigo criado ali e na Pêra Longa). Depois de podadas as videiras, era necessário empar as varas, o que fazia dobrando a vara com cuidado e por forma a ficar como uma circulo, dobrando-se a ponta a que se chamava, se não me falha a memória, de “mosca”, tudo com junco natural que havia ficado de molho ou no poço ou, se corria água, no regato, era mesmo aí que ficava a demolhar para estar macia e não quebrar quando se atassem as varas.

Todo este trabalho aprendi a fazer porque o meu avô pedia ao sr. Cândido (Do Casal dos Corações, entre Cachimbos e Seramena, pai da Tomásia e do Daniel) e outros, que me ensinassem. Eles achavam piada e lá me iam ensinando inclusive a fazer enxertia. Era engraçado, eu, um míúdo, franzino nos meus 10/11 anos, a ombrear com homens e mulheres curtidos nesta dura vida, em que se levantavam cedo fizesse chuva ou sol e que cantarolavam e contavam histórias durante um dia inteiro, puxando pelo cabedal, e com uma jorna que não podia ser elevada.

Lá me iam dizendo, “essa deixa talões com 2 ou 3 olhos” porque é da variedade X ou Y (por onde depois iriam brotar os rebentos de uma nova vide e os cachos de uvas que seriam mais tarde transformados em vinho); ou “essa deixas uma vara para cada lado e dois talões”, se era de uma variedade que o suportava. E tentávamos sempre que as videiras não ficassem muito altas…

Era preciso, depois, se o tempo não estava de feição e as varas se partiam, voltar a percorrer o já podado para proceder à empa, quase sempre de manhã muito cedo (se não houvesse geada por exemplo), e à queima das vides sobrantes da poda. Molhos ou feixes como lhe queiram chamar eram colocados em pirâmide num local aberto, sem mato, e queimados. Eram uma tarefa que fazíamos com cuidado, muitas das vezes íamos em fila indiana e deitávamos os molhos, uns maiores outros mais pequenos na fogueira que ardia estrepitosamente quando algumas canas iam em conjunto com as vides e depois, com uma forquilha íamos juntando os pedaços não ardidos para o centro da fogueira pois não queríamos que atingisse grandes proporções. Ficava ali um braseiro espectacular e às vezes até se assava um belo naco de bacalhau ou umas febras para o almoço.

Meses mais tarde era necessário voltar a “tratar” da vinha. Rebentados os primeiros “gomos”, cedo se desenvolviam. E muitas vezes, o meu avô assim o entendia, começava por sulfatar a vinha com uma mistura que chamavam calda bordalesa e que era feita com cal, derretida e liquidificada e sulfato de cobre. Este vinha em pequenas pedras ou grãos, azuis esverdeados, os quais o meu avô colocava nuns sacos de serapilheira dentro de água, para derreterem, e depois juntar à cal liquida. Havia um processo de controlo de acidez efetuado com umas tiras reagentes que mudavam a sua cor para roxo se tudo estava bem. E aí, bilhas de plástico cheias da mistura, pulverizador manual às costas e toda dar ao braço para sulfatar pela primeira vez os novos rebentos. Era de primordial importância esta primeira sulfatação, bem cedo, para minimizar infecções das videiras que mais tarde se poderia traduzir numa menor produção e de menor qualidade. Depois era repetir a tarefa a cada 15 dias e, se necessário, enxofrar (na “gola” ou no cacho), com enxofre em pó colocado noutro aparelho a que sempre ouvi chamar de “torpilha”, também de uso manual.

Aos poucos os cachos apareciam, floresciam e nasciam os primeiros bagos. Cresciam os cachos ao mesmo tempo que as vides que os suportavam e havia alturas em que era difícil romper pela vinha tal a dimensão que haviam ganho. Calor, suor, mais dificuldades para sulfatar e, por isso, mal o sol nascia lá estávamos nós prontos para sulfatar, agora com um atomizador com motor e que projectava o sulfato por tudo quanto era sítio. Doze horas cheguei eu a fazer a sulfatar com o meu pai e aminha mãe na “Vinha da Forca” quando tinha os meus quinze anos.

Final de verão era tempo de vindimas, a última das tarefas grandes do cultivo da vinha. Mais uma vez, entre amigos e familiares que vinham dar uma mãozinha e pessoal contratado para o efeito, lá andávamos nós de balde e tesoura a cortar os cachos, despejar nos cestos, carregar uns quantos até às tinas (recipientes próprios para transporte das uvas) que estavam colocadas no tractor do Sr. Bonifácio das Carreiras, com quem o meu avô sempre manteve, como todos nós, uma excelente relação. Cheias que estas estivessem, seguia o trator para a despejar no lagar das Caves Bonifácio e nó continuávamos a encher as outras tinas colocadas em pontos estratégicos e que mais tarde teríamos de transvasar para as do tractor.

Hora de almoço, cada um com seu farnel junto à casinha de arrumos e ao poço, de onde se retirava água para lavar as mãos antes do almoço. Algumas uvas eram colhidas para fazermos a nossa água-pé que seria aberta pelos Santos para acompanhar as fritadas de carne de porco e as castanhas assadas.

Sempre que chovia na vindima era uma complicação e uma dor de cabaça acrescida pois dadas as pendentes com elevado declive, os tractores tinham tendência a derrapar e sair do caminho traçado e, por sorte, nunca houve nenhum acidente a não ser algumas videiras partidas. Também para quem carregava os cestos cheios de uva até ao tractor ou à tina, o trabalho, o cuidado era maior para evitarem escorregar e cair, o que algumas vezes acontecia, ainda que sem consequências.

No último dia da vindima havia sempre um magusto com atum de barrica cozido com couves e batatas e que eram uma delícia para todos quantos participavam nesta jornada.

E o ciclo que nesse dia se fechava, haveria de repetir-se a cada ano até ao dia em que devolvemos a vinha ao seu proprietário, encerrando um capítulo de mais de uma década.

António Lúcio

Sobral de Monte Agraço, 24 de novembro de 2022