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AS MINHAS VIAGENS

AS MINHAS VIAGENS

Dom | 27.11.22

HISTÓRIAS DA MINHA INFÂNCIA E JUVENTUDE (4)

UMA DIA NA DEBULHA DO TRIGO NA EIRA DA QUINTA DO CARVALHO

Quando era miúdo e o meu pai em conjunto com o meu avô traziam de renda as terras do alto da Forca (Sobral) e da Pêra Longa, à Seramena, era hábito semearem trigo, cevada e aveia, a par das batatas e do grão de bico para consumo próprio, o que se traduzia inevitavelmente por muitos dias passados nessa labuta agrícola ainda que, com a nossa curta idade (10 aos 13 anos talvez) pouco pudéssemos “puxar pelo cabedal”. Mas, ainda assim, ajudava o meu pai e o meu avô António Diniz, a marcar o terrenos, a cortar as batatas que haviam de ser plantadas nos regos já abertos pelo tractor do Sr. Jordão, do Sobral, ou a plantá-las; ou ainda marcar o terrenos para a sementeira do trigo que o meu pai, Diamantino Lúcio, fazia questão de colocar umas canas para seguir uma determinada direcção…

Pois bem, no verão chegava a época das colheitas e eu já de férias da escola, alinhava nos trabalhos que havia para fazer. Era o tempo de ceifa e da debulha dos cereais. Um grupo de homens e mulheres onde se incluíam familiares com a minha mãe Adelina, as avós Sara e Aldegundes, o Manel de Alcareia (nosso vizinho, marido da Doroteia Silva, mãe da Otília, do Carlos, do Aníbal, do João Manuel e da Paula, se me lembro de todos) lá iam estrada fora, dos Cachimbos para a Seramena e para a Pêra Longa, ceifar o trigo. Era um rancho grande a que por vezes se juntava o Sr. Cândido que morava nos Casal dos Corações entre os Cachimbos e a Seramena e alguns outros nossos familiares e parentes.

Ceifado o trigo, este era colocado em molhos grandes atados com corda e empilhados no que se chamavam vulgarmente as medas e aguardavam aí o momento de serem carregados no reboque do trator do Sr, Jordão e descarregados no local da eira onde, mais tarde seria debulhado e ensacados os grãos que seriam entregues no Celeiro da FNPT (Federação Nacional dos Produtores de Trigo) no Campo da Feira de Sobral (hoje Sobralpneus) ou  em Malgas… As cargas, devidamente feitas pelo meu pai eram atadas com cordas para que não houvesse a possibilidade de se desmancharem e caírem à estrada, má, até à Quinta do Carvalho (entre A-dos-Chancos e Vermões, no cruzamento para a aldeia da Pedreira).

Por hábito aí se instalava uma máquina debulhadora com a respectiva enfardadeira (transformava a palha em fardos atados com 2 arames ou cordões) que era operada pela força de uma correia de lona ligada a vários eixos a partir de um tractor que exercia essa força de tracção. Homens no chão iam passando os molhos de trigo aos que alimentavam a máquina, umas vezes por força braçal (se o local por onde entrava o trigo era na cima cimeira da máquina ou então num tapete rolante que levava os molhos até esse destino.

Depois, era ver os grãos de trigo a encher uma caixa de onde eram transferidos para as sacas e pesados em balanças decimais. Eu acompanhava, com o meu primo António José, essas operações do princípio ao fim e com um carrinho enfileirava as sacas de serapilheira marcadas a tinta com as inicias AD ou DCL consoante o cereal era do meu avô ou do meu pai. E controlávamos o número de fardos de palha que saiam da enfardadeira e eram colocados em pilhas em zona própria, até porque de tudo o que saía da máquina havia uma percentagem que havia de entregar ao dono da máquina. Pagava-se em géneros e não em dinheiro. E uma parte do cereal, do trigo nomeadamente, ficava em nossa casa para depois ser moído no moinho do sr. António que vinha na sua carroça puxada for um forte macho, parava à nossa porta, carregava o cereal e na volta entregava a farinha, ainda por peneirar e que tantas vezes me deixou acompanhá-lo nesse seu trabalho no moinho que fica perto do baloiço…

Na eira da máquina, como lhe chamávamos, era uma azáfama imensa e tudo o que era grão era ali debulhado. O pó e os restos mais finos das palhas deixavam-nos castanhos. Levávamos quase sempre um farnel feito pela minha mãe. Um cabazito de verga com um tacho bem embrulhado em jornais e com um pano turco, garfo e faca, um naco de pão, água e, quando a máquina parava por volta das onze ou meia dia, lá se juntava toda a gente a comer. Um fardo de palha fazia a nossa mesa e rapidamente o bulício voltava.

Eram momentos diferentes, vividos num tempo diferente, com intensidade dada a nossa juventude também, e onde muito se aprendia sobre os trabalhos do campo – a que ficamos indelevelmente marcados -, sobre o espírito de entreajuda que havia, sobre como valorizar os nossos produtos e aproveitar ao máximo tudo o que a terra nos dava. Até o que sobrava da limpeza do trigo e outros cereais (que a minha avó e os outros vizinhos chamavam de “alimpaduras” iam para sacas próprias pois serviam para alimentar os outros animais). Por isso a tal lei que diz que “na natureza nada se perde, tudo se transforma.

E à hora combinada lá estava o Sr. Jordão com o seu tractor e reboque prontos para carregar as sacas de trigo, as outras e os fardos de palha com que o meu avô pretendia ficar pois os outros já os vendera na eira… O dia já ia longo e nós o que queríamos era um belo banho, comer algo quente e ir dormir porque no dia a seguir iria ser igual.

Eramos felizes e disso só muito mais tarde nos demos conta.

António Lúcio

Sobral, 13 de Novembro de 2022