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AS MINHAS VIAGENS

HISTÓRIAS DA MINHA INFÂNCIA E JUVENTUDE (3)

QUANDO A AVÓ SARA COZIA PÃO NO FORNO A LENHA…

24.11.22 | António Lúcio / Barreira de Sombra

De quando em vez a minha avó Sara, que vivia como nós nos Cachimbos, do outro lado da rua (estrada nacional), decidia cozer o tradicional pão de trigo, por vezes também de milho, e em épocas mais festivas até fazia uns bolos de ferradura, uma rosca se estávamos em época dos leilões de Seramena, e uns suspiros que só iam para o grande forno quando se retirava o pão.

Como devem calcular era dia de festa. Primeiro, num alguidar de barro vidrado a verde, de grandes dimensões, eram vertidos cerca de 20 kilos de farinha de trigo que havia sido peneirada pouco antes e que haviam sido moídos no moinho do Sr. António. A minha avó fazia numa pequena malga ou tijela, o fermento que iria ajudar a levedar a massa (os tais 20 kilos), depois de juntar fermento do padeiro que ia diluindo com água tépida e uma pitada de sal e a que juntava um pouco de farinha. Depois vinha a árdua tarefa de misturar este elemento com a restante farinha, água tépida e vá de amassar, á mão, durante um tempo considerável, a massa que iria dar origem ao pão. E aí já eu esfregava as mãos e as metia à massa, ajudando a avó ou a minha mãe, que se revezavam para continuar a amassar o pão que mais tarde todos iriamos comer.

Amassar pão não é uma tarefa fácil, podendo até parecer algo violenta pois é necessário envolver muito bem a farinha coma água por forma a não ficarem grumos ou pequenas bolhas com farinha seca com farinha seca no meio e dura algumas horas até se conseguir essa pasta homogénea e já enxuta, pronta para levedar e depois se cortar em pedaços mais ou menos iguais que aguardarão a sua vez de entrarem para o forno.

Enquanto isto decorria, havia que acender a lenha que, no interior do forno, iria permitir que a temperatura fosse a ideal para cozer o pão sem o queimar ou para que não ficasse tão mal cozido que não de pudesse queimar. E aqui a experiência da avó Sara era essencial. A forma como alimentava o forno com lenha, o puxar do borralho para a “boca do forno” de depois de para lá entrar o pão era fechado com uma tampa de ferro, era a garantia de que tudo estava a correr como mandavam as regras. Ela lá sabia e aquilo sempre saía bem. E os netos acompanhávamos tudo com o máximo interesse até porque no final havia sempre algo para o lanche…

Esta azáfama trazia, algumas vezes, a visita da minha tia Crielmina e dos filhos António José e Lurdes, outras vezes a tia Rita e a Dulce, ou até o tio Filipe, vindo de Setúbal com os filhos José António e Luís Filipe. Enquanto o pão levedava, havia outro alguidar de barro ponto para levar a farinha, os ovos, o açúcar, a raspa da casca de laranja, o pau de canela, a margarina derretida, as ervas aromáticas e lá se misturava tudo o que iria dar origem aos belos bolos tipo ferradura e com sorte a alguns maiores como as roscas, enfeitadas por cima, ou ainda uns redondos recortados com tesoura e que faziam as nossas delícias, que os comíamos ainda quentinhos. Das claras que sobravam, numa tijela funda, com o auxílio de umas varas de aço, eram batidas vigorosamente com açúcar branco, haviam de sair uns belos suspiros que iriam ser cozidos no forno em conjunto com os outros bolos e depois do belo pão.

E era aqui, no momento em que o pão saia do forno e a minha avó e a minha mãe o arrumavam nos cestos onde durariam uma semana, sem ganhar cheiros nem bolores, que nós aproveitávamos os primeiros pães para lhes cortar o que chamávamos “mamas” umas bolas que rebentavam quando estavam a cozer, para as abrirmos ao meio, colocar açúcar amarelo e azeite ou apenas manteiga ou ainda marmelada e com um café de borras (mistura solúvel de cevada e chicória) feita na cafeteira de alumínio e nas brasas à entrada do forno, o tal borralho, e nos lambuzava-mos com todo aquele banquete de final de dia, havendo ainda lugar a um ou outro bolito (havia quem o besuntasse de manteiga) e ou ao suspiro que ninguém queria que comessemos ainda quentes mas aos quais não resistíamos.

E quando se juntavam os primos então a festa era ainda maior. E a avó Sara ficava contente de ter os seus pintainhos (netos) todos juntos. A fartura faz-se da vontade de partilhar e do pouco se faz muito assim haja essa capacidade de dar e receber.

António Lúcio
Sobral de Monte Agraço, 15 de novembro de 2022