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AS MINHAS VIAGENS

AS MINHAS VIAGENS

Sex | 25.11.22

HISTÓRIAS DA MINHA INFÂNCIA E JUVENTUDE (2)

DA AZÁFAMA DA PREPARAÇÃO DO DIA DE TODOS OS SANTOS

A azáfama começava de véspera. Preparar o forno para cozer o pão e fazer as broas de diversos tipos e condimentos. Preparar as carnes, cortá-las em cubos e temperá-las a preceito, numa marinada de vinte e quatro horas para ficarem bem saborosas. Retalhar castanhas para assar ou cozer, ao gosto de cada um. Cortar batatas para cozer ou fritar e acompanhar as belas das fritadas que iriam ser o almoço do dia seguinte. E ainda uns bolos fritos, de laranja ou abóbora.

Era assim que a minha mãe e a minha avó preparavam o Dia de Todos os Santos na nossa humilde casa em Cachimbos, ali tão perto da feira do Almargem, feira onde se vendia de tudo um pouco e onde as barracas, de longas mesas corridas e grandes encerados (lonas) por cima davam abrigo e alimentavam milhares de pessoas que durante todo o dia ali se deslocavam.

O Dia de Todos os Santos é o dia do aniversário da minha irmã e na nossa sala de refeições era montada uma enorme mesa onde se almoçava e onde havia sempre muita gente. Na altura, o meu  pai trabalhava na Lopes & Matos e, mais tarde, na Boa Viagem, como cobrador-bilheteiro e esse era um dia de enorme azáfama pois faziam muitas carreiras de e para a Feira do Almargem com origem nos mais diversos pontos dos concelhos limítrofes e a que chamavam de “eventuais” pois não havia regularidade.

Pois bem, estão a imaginar onde é que o meu pai e os colegas de trabalho como o Mesquita, o Fonseca, o Adelino, o Bento, o Remexido, o Ti Carmo, abancavam por minutos para comer algo pois as camionetas não podiam parar? Pois claro, junto à nossa casa! Era uma alegria enorme ter tanta gente connosco nesse dia de festa. E claro, a minha irmã fazia anos e numa dessas vezes o Mesquita, que ia em alugueres a Espanha, trouxe-lhe de prenda, uma espanhola toda trajada a rigor.

Por causa do trânsito, havia sempre um ou dois GNR no cruzamento, e estou a falar-vos de há uns quase 45/50 anos atrás. Também eles não eram esquecidos e logo de manhãzinha, um café de borras e umas broas ou bolos fritos serviam para aquecer o estômago. E à hora de almoço eram sempre convidados a come algo.

Depois, umas vezes mais cedo outras mais tarde, com a minha mãe ou com a minha avó ou com algum dos tios que nos visitava nessa altura, íamos até à feira, comprar castanhas e outras coisas e passear no meio de tanta gente, tanta gente, que só não nos perdíamos porque estávamos bem perto de casa. Vendiam-se cabras e ovelhas, burros e machos, vitelos, havia os “carros das fábricas” com os seus megafones a vender cobertores e mantas e outras coisas para casa…. Enfim havia de tudo para todos e às vezes trazíamos uns cobertores novos para as nossas camas.

E ao final da tarde, numa curta paragem da carreira, o autocarro de passageiros, à nossa porta, lá vinha o meu pai e o motorista comer algo porque o resto do dia ainda ia ser longo pois havia muita gente para “tirar” da feira e devolver aos seus locais de origem. E já a noite ia longa quando a minha mãe nos metia na cama. “Amanhã é dia de escola. Boa noite” e despedia-se com um beijinho a cada um.

Era momentos que se viviam sempre com intensidade porque só assim a vida faz sentido.

Sobral de Monte Agraço, 31 de outubro de 2022

António Lúcio